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Começa agora o novo Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Esta manhã com a análise do professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas, José Filipe Pinto. Bom dia, professor. Muito obrigada por estar conosco.

Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.

Muito bom dia. As Nações Unidas consideram que existe uma forte probabilidade do Hospital Pediátrico de Kiev ter sido atingido por um disparo direto de um míssil russo e pedem uma investigação. José Filipe Pinto, sabemos que é o correto a fazer, mas também sabemos que quaisquer que sejam as acusações, Putin sairá ileso. Temos o exemplo do mandado de prisão do Tribunal Internacional.

Sim, Maria João, é uma situação muito triste. Sabemos que não há nenhuma justificação para atacar um hospital pediátrico, mas repare, esta situação não é inédita e sabemos também que Putin nunca irá assumir a responsabilidade pela destruição do hospital. Por quê? Ele já está a fazer funcionar a sua política de desinformação, usando um dos seus quatro Ds, o D de distort, para atribuir a destruição do hospital a um míssil terra-ar cedido pelo Ocidente à Ucrânia. Para Moscovo, distorcer a realidade é prática habitual. Mas atenção, o fato de ter sido um ataque a um hospital infantil tem um sentido que já está estudado, porque sabe que um atentado, quando envolve crianças ou mulheres, seja como vítimas, seja como agentes, a comunicação social, principalmente aqui no Ocidente, dedica-lhe quatro vezes mais tempo de antena. E por isso mesmo, o que acontece é que Putin quer uma visibilidade. Uma visibilidade que, neste caso, pode funcionar como anticorpos para a sua ação, mas ao mesmo tempo mostra que ele está numa situação capaz de atacar o Ocidente através do ataque a Kiev.

Entretanto, o presidente ucraniano agradeceu aos líderes que têm apoiado a Ucrânia e disse que estão a preparar iniciativas conjuntas para proteger a vida do terror russo. Professor José Filipe Pinto, de que iniciativas está Zelensky a falar? Serão as decisões que vão sair da Cimeira da NATO que está a decorrer em Washington?

Muito provavelmente sim, Maria João. Repare, a Rússia quis mostrar com este ataque ao mundo e ao Ocidente que continua a ter capacidade para atingir o coração do país, na sua capital e na cidade natal de Zelensky, para tentar minar o moral da resistência ucraniana. Mas também deu um sinal de que Putin quer condicionar os resultados dessa cimeira da NATO. Por quê? Porque ele não aceita a regra de que os vizinhos acontecem, mas os amigos escolhem-se. Putin julga-se no direito de escolher os amigos para os seus vizinhos. E é por isso que esta cimeira da NATO é muito importante, a meu ver, por quatro motivos, um dos quais se prende com a questão que a Maria João me coloca. Qual é o primeiro motivo? Primeiro, porque acabará por avaliar a capacidade de Biden para se manter na corrida presidencial. Todos os gestos, todos os discursos do líder norte-americano vão ser objeto de escrutínio constante, tentando descobrir alguns sinais que indiciem que Biden se deve afastar da corrida presidencial. Segundo, importa perceber se na declaração final, e este é um elemento muito importante, vai mesmo contar a palavra "irreversível". E por quê? Porque se essa palavra "irreversível" aparecer no que concerne à adesão da Ucrânia à NATO, significa que a NATO entende que vai estender as suas fronteiras mesmo até à Ucrânia e que a Ucrânia passará a integrar o território NATO. E isso, evidentemente, é visto como uma afronta por parte de Moscovo. Terceiro, porque esta cimeira vai também contar com a presença do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel e um vasto leque de países árabes vizinhos de Israel. Isso permitirá à administração norte-americana tentar influenciar no sentido da resolução do conflito no Médio Oriente. E a que é que Zelensky se pode estar a referir? É o quarto elemento que, a meu ver, esse parece adquirido. É que a NATO vai continuar a apoiar o esforço de guerra ucraniano, tentando controlar o avanço russo, como forma de evitar que a Ucrânia se veja obrigada a uma espécie de capitulação altamente penosa e problemática para a União Europeia, em particular, e para o Ocidente, em geral.

Mas professor, como é que devemos interpretar os ataques desta semana? É a Rússia a mostrar à Ucrânia o preço a pagar com o prolongar da guerra e que só tem uma solução, a de ceder os territórios até aqui ocupados?

É uma tentativa, Maria João, de marcar terreno para ir para as negociações numa posição de força. E é por isso que é importante que o Ocidente forneça à Ucrânia com a rapidez ou a celeridade possível, todos os aparelhos que permitam aumentar a capacidade de defesa antiaérea ucraniana. E por quê? Porque o que Putin percebeu é que o avanço no terreno é muito moroso e à custa de muitas vítimas. Repare, o número de mortes e feridos do lado russo é muito superior ao do lado ucraniano. E se repararmos, esse número de vítimas traduziu-se em ganhos de que aspeto geográfico? 0,01%, eu repito, 0,01% de território. Dito de uma forma mais simples, a guerra no terreno está praticamente num impasse, mas num impasse mortal. E por isso mesmo, o que Putin está a querer mostrar é que dispõe da capacidade de De superioridade aérea. E por isso mesmo, por muito que o Ocidente apoie a Ucrânia, ele vai continuar a fazer ataques cirúrgicos e que acabam por destruir o moral da resistência ucraniana.

Entretanto, professor, o que me diz do tribunal russo ter ordenado a detenção, à revelia, da viúva de Alexei Navalny? O Ministério Público Russo emitiu um mandato de captura depois de apresentar uma acusação contra Navalnaya, que vive no estrangeiro, isto por participar numa associação extremista.

É fumo sem fogo. O mandato de captura não surtirá efeito prático. E por quê? Nenhum país ocidental aceitará um, aliás, também pouco provável, pedido de extradição por parte da Rússia. A meu ver, funciona, isso sim, como um duplo aviso. Primeiro, para desaconselhar críticas a nível interno, para mostrar a quem ousar desafiar Putin o que lhe estará reservado. Segundo, para que a viúva de Navalny tenha consciência, que eu acho que ela já tem, que vai passar a constituir um alvo a abater por parte dos serviços secretos russos. Essa é a estratégia habitual de Putin, comprovam os vários assassinatos que esses serviços cometeram em países estrangeiros e que, obviamente, Maria João, o regime nunca vai assumir.

No Médio Oriente e sobre um possível acordo, sabemos que os diretores da CIA e da Mossad vão reunir com o primeiro-ministro do Qatar. Internamente, o ministro das Finanças israelita diz que não fará parte do que seria uma derrota e humilhação para Israel e que o líder do Hamas vai condenar à morte 90 reféns que não fazem parte do acordo. Mas, José Filipe Pinto, depois temos o líder da oposição a dizer que não é verdade que Netanyahu tenha de escolher entre o acordo sobre os reféns e a continuação do seu mandato como primeiro-ministro. Como saber o que está ou não em cima da mesa, sobretudo no que diz respeito aos reféns?

Essa, Maria João, é a resposta mais difícil do programa de hoje. E por quê? Porque nós não temos uma noção clara dos interesses reais, efetivos, dos protagonistas que estão no terreno e de ambos os lados. Vejamos, em Israel, raras vezes, se alguma, se falou a uma só voz. E o que acabou de dizer prova precisamente isso. Só se falou a única voz nos dias que se seguiram ao ataque terrorista do Hamas, quando o massacre apelou à unidade nacional. A partir daí, tem sido sempre um desafinar de vozes a nível de Israel. E do outro lado, os dirigentes do Hamas dizem sempre dispostos a aceitar os termos dos acordos, mas depois levantam objeções, levando àquilo a que John Kirby chama lacunas. É por isso que os seus dirigentes estão reunidos, acabam de se reunir, com representantes da Jihad Islâmica e da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Para quê? Sempre em busca de pretextos para levantar novas exigências, pormenores que depois se transformam em pormaiores. E isto acaba por condicionar toda a situação. E, como disse, os reféns. Os reféns, a meu ver, estão a passar de moeda de troca a descartáveis em nome de interesses alheios. E à custa, evidentemente, do sofrimento, que é enorme, das suas famílias. Afinal, e isso é muito triste, é que a vida nestas paragens perdeu valor à medida que a morte se está a banalizar. As pessoas deixaram de contar. Contamos o número de mortes e aceitamos isso como uma coisificação, uma banalização. É todos os dias um número a aumentar. E esta, Maria João, é a política no seu pior.

José Filipe Pinto, muito obrigada pela sua análise, professor. Um bom dia.

Um bom dia para si, Maria João.

Muito obrigada.